Quarta-feira, Maio 31, 2006

Muro alto

Muro alto, poderoso e intransponível. De pedra pulsante, voz falante e ouvido fechado. Feito de medo e receio. Feito de não e não.

Não pulo mais muros, não salto janelas e nem arrombo nada, entro pela porta da frente ou não entro de jeito nenhum. Gosto da verdade sincera, não dessas que as pessoas se enganam, essas verdades bonitinhas feito máscaras de carnaval enfeitadas de lantejoulas e borboletas.

Também não fico a tocar campainha, toco uma vez e espero o suficiente para escutar: Quem é? Se não escuto vou embora, caminhando pela estrada de terra com os pés descalços para sentir o chão, as pedras e a tal quentura.

Constrói o seu muro, faz tua barreira e se protege, fica assim feito tartaruga enfiada no casco. Muro alto, alto e comedido, de pedra falante, voz pulsante e ouvido fechado. Feito de não quero e vou embora. Feito de não e não se preocupe.

Domingo, Maio 21, 2006

Ana

Se for Ana e tantas outras, que seja Ana e só. Sem ser Maria, Lourdes, Kátia ou Carolina. Que seja Ana somente sem ser de Chico nem de Aurélio, que Fernando nem sonhe e que João não acorde. Se for Ana de fato, me mostre o lábio de seta certeira e o coração tambor que cadencia a voz que chama.

Se for Ana, me faça esquecer Amanda, Márcia e Priscila. Que seja minha Ana, que seja minha linda. Se for Ana esqueça também de Carlos, Roberto e Joaquim e lembre-se do dia em que Madalena arrependida beijou Francisco, do dia que Vinicius cantou para Camila e o sorriso se fez nos olhos de Joana e nos ouvidos de Cida.

Se for Ana seja minha, sendo luz de vela ou cantiga. Mas Ana, se ainda insistir em ser Paola, Roberta ou Miriam, não me espere na esquina, pois mulher Ana, mesmo que eu quisesse, tantas assim de uma vez, eu não amaria.

Sábado, Maio 20, 2006

Velho

E de tanto andar descalço, e de tanto ler no escuro, minha testa já não lateja, já não me dói as juntas e me acostumei com o rosto enrugado no espelho. Os anos já não me olham mais de forma tão torta, com aquele riso bobo de quem diz: Não adianta homem, eu cheguei! E tão sutil quanto sua chegada, é a forma como me acostumei ao peso do meu mundo no pescoço, onde não inventaram chapéu que cubra esse calo e essa testa que cansou de doer.

Olho para as minhas mãos lisas, incapazes de segurar qualquer coisa que valha, tão lisas que parece não haver impressões, sem as rugas que meus olhos habituara-se a ver no espelho do banheiro, sem as cicatrizes que os anos me deram, esses pouparam minhas mãos, dos calos, das rugas, das dores. Em compensação nunca tiveram nada, nunca seguraram nada. Por isso levei tudo na cara.

Ah essas rugas, essas mãos, os pés rachados que tanto andaram e os joelhos podres que se associaram com a cabeça e cansaram de doer. Ninei meus desejos com frasco de Romeu sem Julieta e abri os olhos. Vi apenas a luz que quis ver e por isso avancei por tantos túneis sem fim, mirando a esperança que brincava de ponto lá longe. Olhos abertos, olhos abertos, olhos abertos. Quem se importa.

E de tanto andar descalço, no fim, brinquei de menino no campo verde como no conto da escola, que mira o vento com pinto infantil nas mãos, e não se importa com o xixi que vem contra o corpo, e ao sonhar com a saudosa inocência, não quis mais acordar, mas os velhos não dormem, só as crianças.

E criança eu não sou mais.

Sexta-feira, Maio 19, 2006

Não era e nem foi

Não foi de alegria que se desfez, tampouco de tristeza. Foi algo que de tão especial foi parar em pedestal, longe da mão. Não foi samba, nem música, se quer foi canção, foi um barulhinho bom que ficou no fundo, que por algum motivo dormiu no ouvido e pareceu que tudo ia dar certo. Só por dizer.

Foi de repente, mas nem tanto assim, durou um tempo e começou antes de começar,mas no fim teve gosto de tempo pouco e cara de tempo nenhum. Então enterrado foi, assim meio contra vontade, ou com tanta vontade que acabou sendo enterrado e às vezes quando olho pro chão, acho que só eu fiquei lamentando a morte desse meio morto, que morreu pela metade ou se morreu inteiro não me avisaram.

Não foi assim, ruim, foi estranho e medroso, mas tinha jeito de coisa boa, tinha jeito de sorriso de sexta-feira à noite e de amor feito de madrugada. Tinha jeito de ser para sempre, não para sempre porque nada é para sempre, mas aquele para sempre do poetinha.

Bom, talvez do seu jeito sem jeito ou com jeito até demais foi infinito, quem é que sabe medir o tempo ou a intensidade do sonho. Eu não me aventuro a falar dessas coisas de medir porque não sei nem medir o tamanho das minhas palavras! Quem dirá do amor que quis amar! Pfff...

Não foi de alegria, nem de tristeza que se desfez, não foi de coisa boa nem de coisa ruim. Foi de vida que se desfez, foi de acordar segunda-feira de manhã, foi de pensar demais. Se é certo eu não sei. Mas se esse foi o certo, eu prefiro mil vezes fazer a coisa errada. Aí se for o caso eu choro amanhã, hoje eu escolho viver.

Terça-feira, Maio 16, 2006

Ler no escuro

No escuro minhas mãos vasculham o chão. Eu acho terra, eu acho chão, eu acho pregos e acho que não. No escuro não compreendo as palavras, no escuro eu não escuto o som.
No escuro eu sento no que parece ser um canto, no escuro eu tenho medo de ficar de pé, no escuro minhas mãos vasculham o chão. Eu acho livros, eu acho lixo, eu acho recordações, eu acho o chão e acho que não.
No escuro tudo parece distante, no escuro tudo parece com o que não parece. No escuro tudo pode ser igual, no escuro um grão de areia pode virar pedra e então...
No escuro minhas mãos vasculham o chão. Eu acho plantas, eu acho lama, eu acho o cão, eu acho tudo e acho que não. Eu ainda não entendo as palavras, mas começo a entender o chão.

Domingo, Maio 14, 2006

Minutos

Perguntaram-me por que eu vivia, e respondi que vivia pelos dias, pra ver as horas e morrer nos minutos.

Disse que vivia para tentar sentir as luzes e os cheiros das noites, disse que vivia porque não tinha nada melhor para fazer.

Disseram-me que talvez houvesse algo melhor em outro lugar, e falei para que provassem, porque mesmo sem ter nada para fazer, não tinha o porque sair de onde estava.

Mostraram-me então tantas cores quantas fossem possíveis distinguir, e tantos cheiros e tantas horas diferentes que me senti tentado. Disseram-me que era uma pequena amostra, um pequeno gesto, tão pequeno quanto eu. E que podiam me dar mais se eu fosse pra esse outro lugar. E minutos se passaram enquanto eu tomava a minha decisão, e nos minutos fiquei.

Sábado, Maio 13, 2006

irmãos

Eram todos irmãos, todos loucos do seu modo são, impecáveis nos trajes e na educação, falavam javanês e aprendiam alemão. Eram todos unidos e faziam as coisas juntos, matavam passionalmente e ralavam os joelhos no muro do pomar, viviam sem pressa, corriam sem medo e enxergavam elefantes nas nuvens.

Eram todos em vão, andavam de manhã e adoravam feijão, sem teimosia de ninguém buscavam o dom, por isso as bengalas nas costas, por isso os calos nas mãos. Corriam sem medo, e morrer era sempre no portão. Eram sempre como um. Eram ontem como hoje não são.

Eram todos irmãos, e não temiam o tempo ou a falta de pão, tinham vida e tinham sempre o velho colchão. Sim como eram felizes aqueles irmãos, até o dia que um disse não, e o outro perguntou: Quanto então? Todos deixaram de concordar e venceu o não.

Não havia mais porquê então, foi embora a diversão, desfez-se a união e já não eram loucos, já não eram irmãos. Aborreceram-se com a aventura, arrumaram empregos e como tantos, viveram cada um sem amor e nem perdão.