Quarta-feira, Junho 20, 2007

O homem manco

Não ouvia se falar de sensatez por aquelas bandas, das de pernas de cadeiras quebradas e camas tortas. Também não crescia reto, insistia em levar o calombo nas costas, pregado como se sua carne fosse. Andava do jeito torto que tinha escolhido andar, chutava as paredes sem querer, tropeçava nos transeuntes. Não. Não havia sensatez. Perdia o dia no dia de fazer as coisas que tinha decidido mudar, perdia os passos no passo torto que tropeçava a andar. Sentia o medo que às vezes se sente quando sozinho qualquer um finge estar. Malditas cadeiras. Malditas cadeiras e suas pernas quebradas.

Na venda onde comprava seu consolo branco, o homem do balcão desconfiava do calombo do homem manco, sempre ali nas costas aquela aberração, comentava com os outros, com seu sotaque acre, com as palavras azedas de quem fala pelas costas, com o riso ígneo dos seus dentes preto carvão. Era noite quando fazia isso. As putas tripudiavam. Os bêbados, tão tortos e cambaleantes como ele, tripudiavam. O homem do balcão saia do seu balcão para também tripudiar oculto pelo tripudio público. Nada crescia reto, ninguém conhecia a sensatez.

Durante a noite. Sedado. A garrafa ao lado, já meio sem nada do que tinha, mas cheia das palavras e sonhos despejados pelos beijos na sua boca. Durante a noite. Sedado. O calombo das costas, as lágrimas do rosto. Ah! Todo o dia podia ser noite. Não havia sensatez no homem manco, assim como não havia sensatez em ninguém mais por aquelas bandas, onde quebravam as pernas das cadeiras para poderem sentar com suas pernas tortas e onde suas culpas entortavam suas camas ao dormir. Maldita sensatez.

Quarta-feira, Junho 06, 2007

João

João amou, João amou como nunca amara. João sorria pelos lados, João corria pelas salas, João andava nos tetos, João sussurrava no céu. João amava. Sim João ame. Ame, ame muito. E João amou. João não sabia mais por onde amava, mas amava. João amava do seu jeito João. Sem medo, sem receio, sem medo de dizer que amava. João era o máximo no amor que sentia. Dava até inveja de João.

João amou, amou dia após dia. João amou até o próprio amor pedir licença. Mas João não se importava se o amor pedia licença ou não. Quem era o amor para impedir João de amar! João queria sorrir o sorriso, João queria gozar o amor. João não tinha limite. João era apenas feliz. Impressionante esse João. Ele era apenas feliz.

Mas todos sabem o mal dos excessos. João tinha que se importar com o amor. E o amor assim o fez. Reduziu João a obediência. Então João se perguntou: Isso é amar? João começou a achar que não. João começou a achar que não mesmo. João não queria mais. João começou a andar de lado, começou a evitar o toque. Que coisa. Perguntaram a João onde estava o sorriso que queria sorrir, perguntaram a João se ele era mesmo João.

Ah João. Todos um dia hão de perder o amor. João perdeu. Mas pra todos aqueles que nunca amaram como João, ele foi um herói. Ele foi único no seu abuso, no seu desleixo e no seu eu João. Que saudades João. Que saudades.