O homem manco
Não ouvia se falar de sensatez por aquelas bandas, das de pernas de cadeiras quebradas e camas tortas. Também não crescia reto, insistia em levar o calombo nas costas, pregado como se sua carne fosse. Andava do jeito torto que tinha escolhido andar, chutava as paredes sem querer, tropeçava nos transeuntes. Não. Não havia sensatez. Perdia o dia no dia de fazer as coisas que tinha decidido mudar, perdia os passos no passo torto que tropeçava a andar. Sentia o medo que às vezes se sente quando sozinho qualquer um finge estar. Malditas cadeiras. Malditas cadeiras e suas pernas quebradas.
Na venda onde comprava seu consolo branco, o homem do balcão desconfiava do calombo do homem manco, sempre ali nas costas aquela aberração, comentava com os outros, com seu sotaque acre, com as palavras azedas de quem fala pelas costas, com o riso ígneo dos seus dentes preto carvão. Era noite quando fazia isso. As putas tripudiavam. Os bêbados, tão tortos e cambaleantes como ele, tripudiavam. O homem do balcão saia do seu balcão para também tripudiar oculto pelo tripudio público. Nada crescia reto, ninguém conhecia a sensatez.
Durante a noite. Sedado. A garrafa ao lado, já meio sem nada do que tinha, mas cheia das palavras e sonhos despejados pelos beijos na sua boca. Durante a noite. Sedado. O calombo das costas, as lágrimas do rosto. Ah! Todo o dia podia ser noite. Não havia sensatez no homem manco, assim como não havia sensatez em ninguém mais por aquelas bandas, onde quebravam as pernas das cadeiras para poderem sentar com suas pernas tortas e onde suas culpas entortavam suas camas ao dormir. Maldita sensatez.
Na venda onde comprava seu consolo branco, o homem do balcão desconfiava do calombo do homem manco, sempre ali nas costas aquela aberração, comentava com os outros, com seu sotaque acre, com as palavras azedas de quem fala pelas costas, com o riso ígneo dos seus dentes preto carvão. Era noite quando fazia isso. As putas tripudiavam. Os bêbados, tão tortos e cambaleantes como ele, tripudiavam. O homem do balcão saia do seu balcão para também tripudiar oculto pelo tripudio público. Nada crescia reto, ninguém conhecia a sensatez.
Durante a noite. Sedado. A garrafa ao lado, já meio sem nada do que tinha, mas cheia das palavras e sonhos despejados pelos beijos na sua boca. Durante a noite. Sedado. O calombo das costas, as lágrimas do rosto. Ah! Todo o dia podia ser noite. Não havia sensatez no homem manco, assim como não havia sensatez em ninguém mais por aquelas bandas, onde quebravam as pernas das cadeiras para poderem sentar com suas pernas tortas e onde suas culpas entortavam suas camas ao dormir. Maldita sensatez.

